terça-feira, janeiro 13, 2009

O Portugal dos pequeninos de espírito

Sabem o que está “in”, mas mesmo “in”? É dizer mal daquilo que é bom. Só porque sim. O quê? O Cristiano ganhou o prémio da FIFA para melhor jogador? E logo do mundo? Como é que ele se atreve?! Com uma crise destas? Isto está tão mau! Vamos lá dizer mal do tipo!
E os argumentos para sustentar esta crítica ainda são melhores: ou porque o Messi é melhor, ou porque Portugal tem dívidas externas e ainda aí uma crise dos diabos, ou porque os banqueiros lixaram o sistema bancário nacional todo e agora anda tudo endividado, ou porque a gasolina está cara, ou porque está frio com’ó caraças. "E o gajo agora tem o desplante de ganhar o título de melhor jogador do mundo?" Epá, digo eu, ganhem mas é juízo!
Tudo bem que não apoio a histeria colectiva nem a quantidade de reportagens, directos e páginas e páginas de revistas e jornais com a cara do moço do Funchal e sua mãezinha, mas também não desejei que ele perdesse, como os demais. Nem se trata do sentimento da portugalidade. Ele é genial, premeiem a genialidade! Ah, mas também temos médicos geniais, escritores geniais, investigadores geniais e esses não ganham prémios… Pois temos. E eles também são reconhecidos pelos seus feitos. Mas não fazem parte da “máquina”. O marketing da bola, meus senhores, faz milagres, endeusa mesmo as pessoas que só sabem correr, dar pontapés na bola e conjugar mal o Presente do Conjuntivo. Mas agora vamos ser comezinhos ao ponto de desejar que um gajo, que até é mesmo, mesmo, mesmo bom no seu ofício, não ganhe um prémio só porque achamos que aquilo que ele faz é superficial ou menor comparado com os problemas do país?
Aposto que se fosse um futebolista de outra nacionalidade a ser reconhecido como melhor do mundo, tudo bem, “o gajo até é bom e tal”. Agora, como é português, é futebolista, e até ganha uns trocos a mais do que todos nós, pronto! Já não presta. Deixem de ser queirosianos, por favor. Ah, e ele é tão arrogante. Pois é, mas ele pode ser. É bom e sabe que é bom. E isso nem é arrogância. É “self-awareness”, como se diz em estrangeiro. Digo mais, antes a arrogância dele do que a daquelas pessoas pequeninas dos nossos microcosmos que se armam ao pingarelho o dia todo. E aí já ninguém diz nada. Ou é porque é senhor doutor e fica mal, ou porque não queremos confusões, ou porque só fica bem dizer estas coisas nas costas.
Bem sei que este texto, que até já vai mais longo do que o pretendido, mais parece uma qualquer mensagem de um fórum de fãs histéricas do CR7. Não poderia estar mais longe da verdade. Mas, “shame on me”, até consigo reconhecer o valor que ele tem, na área a que ele pertence.
Basicamente, não gostam do menino, não é? Não faz mal, ele nem sabe quem vocês são. E isso chateia, não é?