quarta-feira, julho 23, 2008

De longe recorda-se hoje

Até sabe bem esta derrota, pensou ela. Abrir os olhos custa sempre um pouco, especialmente pela manhã, todos os dias, mas ali à hora do café as pestanas já não lhe pesam. Uma pressão quase capital, como um amor que não esquece. Nem uma mágoa de palavras ao vento. Nem as horas que pesam e não passam.
Flores de uma jarra murcha miram a imagem de uma mulher cansada, com pés que ardem mas que andam. Hoje entregou-se à apatia de um dia comum, lembrando sorrisos beijados na relva, uma tarde, uma noite. Distantes estão as fotografias de mãos dadas ou pintadas e marcadas numa folha branca. O quarto ainda tem miniaturas de carros de gente grande, roupas coloridas espalhadas no chão. Espalhadas estão também as pequenas gotas de água por sua cara. Jamais ouvirá aquela gargalhada após um trambolhão de um monstro qualquer animado. Hoje as molduras guardam o pó das cinzas daquele pequeno corpo falecido.
Uma verde flor já não traz esperança.