segunda-feira, janeiro 28, 2008

Susto

O medo saía-lhe das pestanas. As mãos tentavam esconder o óbvio, mas a boca traiu-a. "Tenho medo", desabafou aos pais, enquanto os carris do metropolitano raspavam e soltavam lindas faíscas cor-de-laranja. "Não sejas tonta", sossegou a mãe, que carregava um outro ser nos braços. O pai, mais severo, pediu-lhe para ter mais modos em público. Ela baixou a inocente cabeça enfeitada por missangas coloridas e pediu para que a viagem fosse mais curta. Ao ouvir o nome da próxima estação, a menina das tranças encarapinhadas levantou os olhos risonhos e levantou-se num subtil pulo. O fim da agonia estava para breve, pensou por certo. Ela sai da sua breve e recente tortura rapidamente e, atrás de si, soam dois ruidosos sons. Um deles era o de sua mãe, ainda do outro lado do vidro. A menina dos olhos negros como a sua pele chorou sozinha numa estação abandonada como ela e largou as lágrimas que, minutos antes, lhe pediram para guardar.