terça-feira, março 27, 2007

na ponta dos dedos

A mão disse à outra para esquecer. Ela riu-se, como não podia deixar de ser, face aquele momento de pura revelação imediata. Tantos dias de promessas confessadas e partilhadas que hoje até soam a piada. “Então por que choras?”, pergunta o curioso dedo. A mão só sabe responder com mais uma lágrima. E confessa por entre o toque das pálpebras molhadas que nunca quis estar ali, afastada da outra mão. Mas o percurso bilateral de ambas escondeu o pior segredo de todos, a mentira. Não admira que as unhas tivessem crescido tão depressa. Aquela mão precisa de se defender. De espetar a sua fúria na outra se for preciso, de se raspar na parede e de se magoar para nunca mais voltar ali, para o lado da outra mão. Agora passou ali para os lados do cabelo, sempre suave, sempre bem-disposto. Por aí fica um pouco, a descansar, até que chega ao peito e acalma-o um pouco. O coração bateu tanto esta noite que ensurdeceu o pobre ouvido. A mão também passará por lá, mais tarde. Agora é a vez da boca. A mão tapa-a de mansinho, para que esta não sussurre mais disparates. Que fique sossegada no seu canto. A mão também beija as pernas…aquelas que insistem em tremer. Burras pernas que não seguem o exemplo das mãos. Parvas pernas que são sempre as primeiras a ceder. Elas e o estômago, esse ingrato. Além de chorar também grita. Pede ajuda e vive sufocado em bílis e em desejos de vãos jejuns. A mão parou até de escrever. As palavras que o cérebro lhe ditava já não eram suficientes. A mão parou de aquecer a outra. As palavras que o outro cérebro lhe sussurrava já não eram verdadeiras.
E acenou.

segunda-feira, março 26, 2007

Wanna dance?!



"Yah!", Buraka Som Sistema

sexta-feira, março 23, 2007

pseudo

Anseio a cegueira pálida
dos lindos versos construídos
pela voz que me dás por escrito
- ainda hoje é assim.
E tanto me dei à sorte
que os boémios dados banidos
me avisaram nos sonhos
- ainda ontem foi assim.
Um breve sorriso oferecido
e a minha pele demora a secar
do suor que a tua pele demorou a dar
- ainda amanhã será assim.

domingo, março 18, 2007

Dogma de calções

- 'Tás a ver, puto?! O Sporting ganhou ao F.C. Porto!
- Pois foi. Mas ainda não somos os melhores.

sábado, março 17, 2007

Para quem (ainda) não conhece



Amy Winehouse, Rehab

quinta-feira, março 15, 2007

:)

retirado de www.muttscomics.com

segunda-feira, março 12, 2007

Seriedades

O que não é a sério só pode dar vontade de rir. Mas nem sempre é assim. Raios partam a necessidade de compartimentar tudo, de definir o que se é, o que se representa. O que não é a sério também pode ser verdadeiro. Mas às vezes não é assim. Até doem os dentes da frente, ao sentir a mentira passar por ali e, nos entretantos, vai-se acreditando no que se quer. O que não é a sério apenas pode magoar se quisermos. Mas nunca é assim. Nem se controla a velocidade a que a desilusão chega. Vem tão depressa e é tão eficaz que, num piscar de pestanas, sentimos que só nos resta encolher os ombros. O que não é a sério pode passar a sê-lo. É sempre assim.

sexta-feira, março 09, 2007

Consequência

Outro remédio não houve senão levar as mãos à cabeça. Pela incredulidade ou simplesmente porque não queria sucumbir de imediato, aos olhos de quem o viu crescer todos os dias. Outra escolha não pôde ser feita senão vestir o casaco e virar costas. "Depressa, que as lágrimas estão a chegar", pensou, assim que o tapete lhe viajou pelos pés.

sábado, março 03, 2007

Aqui e ali

E quando o sangue sobe até ao mais pequeno cabelo a circular pelos dedos das quatro mãos em uníssono é sempre tudo mais confortável. Estica-se uma perna, encosta-se a cabeça a um ombro doce e as pálpebras beijam-se momentaneamente. No silêncio entre concordâncias está a razão. Reside-se no horizonte de uma luz quase apagada, que pisca as impossibilidades aqui e ali. Branca saudade esta, que nem devia existir. E de novo o conforto e o corpo que aquece quase por vontade própria. Quando os braços não querem baixar, que se abracem, que sirvam para apanhar os desejos espalhados por aqui e por ali. E que as suas mãos acariciem sempre por instinto uma face escaldada, mas sempre doce, mesmo quando amarga. No ruído entre discordâncias está a emoção. Aqui e ali há o encontro.