segunda-feira, janeiro 29, 2007

(re)Viver

Ele abriu novamente aquele livro porque o cheiro dela ainda morava por ali. Tal como os cabelos que ele insistia em não pentear, assim ficava ela pelos cantos da sala, cantando uma música que pensavam ser só deles, encantando os minutos de mais um dia interminável para os dois.
Às vezes, durante a tarde, ele piscava-lhe o olho, subtilmente, e ela molhava os lábios em jeito de retorno, como sempre fazia. Além do estômago aos saltos quando ele entrava na sala, as pernas rumavam sempre até ele, mesmo quando ele não vinha.
E houve um dia em que ele nem sequer chegou a dizer adeus. Saiu, com a camisa para fora das calças, t-shirt amarrotada, a pele a dar da sua noite passada e até hoje vive no mesmo sítio. Ela nunca mais o viu, garante. Mas sempre que aquela árvore se cruza nos passos do seu caminho, ela passa as mãos pelos ombros e repete uma confissão passada. Vivem os dois ali.