quarta-feira, janeiro 17, 2007

Em dois actos

I.
Ser uma nuvem de pó e ferrugem para quem se quer bem ou simplesmente um risco de veneno à porta.
De outra maneira não correria. Os pés parecem dar de si, mas os olhos nem sempre se encontram.
A fórmula matemática de entrega de dois destinos consegue dissimular a verdade. Aquela mesma que se carrega durante 24 horas no peito.
A palma da mão bem aberta esconde o medo primaveril de sucumbir antes de ouvir o mergulho. O corpo a bater na água, o cabelo a molhar-se lentamente e, num ápice, retomar a respiração.
É aqui que se encontra a ampliação da imagem que guardo.
Em tons de azul claro.
II.
Empurraste-me com uma suavidade tal que o meu braço escureceu de imediato numa nódoa incapaz de ser removida. Marcou. E o resultado vai sempre contra a ideia pré-concebida de que se é capaz de dividir águas, sem apelar a milagres, apenas seguindo o impulso. Até foi ele que me trouxe até aqui mas o cruzamento confundiu-me por instantes. A mochila já estava a caminhar para os ombros, o mapa nas mãos descansava, o polegar à beira da estrada erguido e ele não veio . "Não há passos divergentes para quem se quer encontrar", canta-se. E para quem não se dá?