segunda-feira, janeiro 29, 2007

(re)Viver

Ele abriu novamente aquele livro porque o cheiro dela ainda morava por ali. Tal como os cabelos que ele insistia em não pentear, assim ficava ela pelos cantos da sala, cantando uma música que pensavam ser só deles, encantando os minutos de mais um dia interminável para os dois.
Às vezes, durante a tarde, ele piscava-lhe o olho, subtilmente, e ela molhava os lábios em jeito de retorno, como sempre fazia. Além do estômago aos saltos quando ele entrava na sala, as pernas rumavam sempre até ele, mesmo quando ele não vinha.
E houve um dia em que ele nem sequer chegou a dizer adeus. Saiu, com a camisa para fora das calças, t-shirt amarrotada, a pele a dar da sua noite passada e até hoje vive no mesmo sítio. Ela nunca mais o viu, garante. Mas sempre que aquela árvore se cruza nos passos do seu caminho, ela passa as mãos pelos ombros e repete uma confissão passada. Vivem os dois ali.

sábado, janeiro 27, 2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Os palhaços também se cansam de o ser



















Imagem: PPG

segunda-feira, janeiro 22, 2007

PUB

domingo, janeiro 21, 2007

Do corpo

É das vísceras que vem e me dilacera o estômago, à medida que passa pela garganta e o amargo na boca fica. Prolonga-te em mim, se fores capaz. Fica, mas ao menos destrói um bocadinho das minhas entranhas. Provoca o choque, rebenta com todos os arrepios em todos os poros do meu corpo, mas faz-te sentir. Eleva a imaginação ao real, mesmo que seja para gritar um palavrão imediatamente a seguir. Mostra-te, rejeita-me, glorifica um “não” eterno, acena e parte. Ou diz que “sim” e senta-te a meu lado. Faz como quiseres que eu como à mesma. Já te vi naquele quarto, às escuras, de olhos abertos, a sorrir para mim. O cansaço faz destas coisas ou então a loucura está para breve. De todas as formas, foste a forma que eu escolhi para me assentar. Enquanto te aperto depois das folgas nos abraços que quase demos sinto-te a rebentar pelas costuras. Mesmo à medida não acredito que fiques. Nunca pensas em mim quando te experimento. Nessa ausência estou lá eu, bem sei. Talvez seja por isso que eu nunca apareci antes. A premonição de uma falha que por entre os dentes não passa. Mil vezes passaste por mim naquela noite e nem me viste. Centraste-me na negatividade de uma não-acção e viraste a cara. E eu na tua rio de desilusão.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Pulso natural

Sobre todas as coisas tenho dito sorrisos. E é ao acordar que o arrepio sussurra à almofada um tímido “bom dia” semelhante à imagem que me preencheu os sonhos.Tudo por um corpo de vícios em toques, nada pela ânsia que se vai queimando nos dias. Acho que as unhas já se acalmaram e os lábios rasgam-se novamente para ti.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Em dois actos

I.
Ser uma nuvem de pó e ferrugem para quem se quer bem ou simplesmente um risco de veneno à porta.
De outra maneira não correria. Os pés parecem dar de si, mas os olhos nem sempre se encontram.
A fórmula matemática de entrega de dois destinos consegue dissimular a verdade. Aquela mesma que se carrega durante 24 horas no peito.
A palma da mão bem aberta esconde o medo primaveril de sucumbir antes de ouvir o mergulho. O corpo a bater na água, o cabelo a molhar-se lentamente e, num ápice, retomar a respiração.
É aqui que se encontra a ampliação da imagem que guardo.
Em tons de azul claro.
II.
Empurraste-me com uma suavidade tal que o meu braço escureceu de imediato numa nódoa incapaz de ser removida. Marcou. E o resultado vai sempre contra a ideia pré-concebida de que se é capaz de dividir águas, sem apelar a milagres, apenas seguindo o impulso. Até foi ele que me trouxe até aqui mas o cruzamento confundiu-me por instantes. A mochila já estava a caminhar para os ombros, o mapa nas mãos descansava, o polegar à beira da estrada erguido e ele não veio . "Não há passos divergentes para quem se quer encontrar", canta-se. E para quem não se dá?

Banda sonora

"Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante"
verso de Deixa-me Rir, Jorge Palma

sábado, janeiro 13, 2007

A mim ninguém me perguntou nada!

A Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) classificou a azinheira que se situa ao lado da Capelinha das Aparições, no recinto do Santuário de Fátima, de "interesse público".
Mas que tipo de análise fizeram estes tipos? Foi de terço e água benta nas mãos? A justificação é baseada, como faz todo o sentido numa análise empírica como esta, em simbolismo. “Está tradicionalmente associada às aparições de Nossa Senhora de Fátima. Vem citada em muitos documentos primitivos referentes às aparições com o nome de ‘Azinheira Grande’. Os videntes e os peregrinos abrigavam-se à sua sombra para a recitação do rosário, antes das aparições”, lê-se num comunicado da DGRF. Et voilá! Sendo assim, vamos lá adjectivar a árvore de "interessante".
Curiosamente, numa reportagem exibida hoje no Jornal da Noite, na Sic, um peregrino afirmou na sua inquestionável certeza que "parece-me que não foi nesta árvore que Nossa Senhora apareceu, mas sim numa mais ali acima". Interessante...

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Public Announcement

Todos temos padrões nas nossas vidas.
O meu é: fechar o sorriso durante, vá lá, sete minutos e ter logo de seguida 18 perguntas que assemelham a isto: «o que é que tens?», «estás chateada?», «o que se passa contigo hoje?». Ou então, pior, 12 afirmações mais ou menos como estas: «estás chateada», «tu não estás bem hoje», «estás estranha» ou, pior ainda, «amuada». Bem sei que o meu estado de espírito em 90% das ocasiões está lá em cima, com muitas piadas e gargalhadas à mistura. Mas eu sou...como é que aquilo se chama...ah! Humana! Portanto, também tenho o direito e o dever, por que não, de ficar menos satisfeita com a vida, mesmo que seja por uns míseros minutos e por uma qualquer mísera questão.
É bom saber que há quem se preocupa comigo, obviamente.
É óptimo acreditar que estas perguntas e até as afirmações revelam carinho e algum esforço para que eu me sinta melhor. Mas, "newsflash everyone", não resulta. Aliás, faz precisamente o contrário! A constante repetição e o tentar «arrancar» de uma confissão da minha parte faz com que eu fique ainda mais chateada! E tudo isto tem uma explicação. Para alguém que busca incessantemente a perfeição em tudo (como é o meu caso, caso ainda não tenham reparado!) não é agradável ter alguém a lembrar-nos constantemente da nossa não-perfeição.
O vosso dedo na minha ferida não estanca a hemorragia.
Deixem-me ter os meus sete minutos de «amuo» - or whatever you call it - por semana, a sério.
Isto já passa...

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Longe (?)

Cruza-se os braços à distância só porque não se pode envolvê-los à cintura, por onde passa o centro do teu mundo...e por que não do meu também. E é ali, naquele espaço taciturno e quase despido de vergonhas, que se cora e se procura um porto de abrigo, nem que seja num momentâneo olhar.
Foi assim há minutos e deu-se as mãos a um redor desperto de certezas. Para quê questionar aquilo que tem já uma resposta? E num poema tudo serve para explicar, numa estrofe encanta-se a névoa de uma manhã mal dormida, desperta-se a vontade de mandar todos a uma qualquer parte bem longe e remar.
Neste rio, só me rio contigo.
E às gargalhadas passo na rua por quem me vê e não me conhece mas sabe que sou assim.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Fantástica descoberta



Ta Douleur, Camille

segunda-feira, janeiro 08, 2007

A perfect fit

Pronto
Agora que voltou tudo ao normal
Talvez você consiga ser menos rei
E um pouco mais real
Esqueça
As horas nunca andam para trás
Todo dia é dia de aprender um pouco
Do muito que a vida traz

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero mais

Chega!
Não me condene pelo seu penar
Pesos e medidas não servem
Pra ninguém poder nos comparar
Por que
Eu não pertenço ao mesmo lugar
Em que você se afunda tão raso
Não dá nem pra tentar te salvar

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero...

......veja
A qualidade está inferior
E não é a quantidade que faz
A estrutura de um grande amor
Simplesmente seja
O que você julgar ser o melhor
Mas lembre-se que tudo que começa com muito
Pode acabar muito pior

Muito Pouco, Maria Rita

domingo, janeiro 07, 2007

A quinta emenda

Desisti agora e tão depressa que os músculos das pernas se atrasaram no compasso. A mudança foi súbita e pensada, como se de paradoxos não fôssemos nós construídos. Parei no tempo porque o tempo assim o quis e vagamente obedeci. Penso que a voz de quem me compensa há mais tempo percebeu antes de mim o que viria depois.
Medir palavras não encurta distâncias.
Tentar adivinhar a mente de outrem não prevê alegrias.
Assim, longe fico, e a simular um sorriso para o exterior, assim me contento.
No fundo, é um virar de costas consentido. Diz-se obrigada por tudo, mas, no fundo, dever-se-ia dizer que não fomos obrigados a nada.
Nem a sentir as respirações mais aceleradas. Nem a elaborar conversas.
O esforço morreu.
Viva o esforço!

sábado, janeiro 06, 2007

O desespero revela o melhor das pessoas



































Brad Pitt em Babel, de Alejandro González Iñarritu
Imagem: DR

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Eu culpo o Camões

Dizem que ele é cego. Cá para mim, é surdo. Surdo e com sérios problemas de aprendizagem. Dizem que ele é um contentamento descontente. De facto, não lhe acho piada nenhuma. Ele é uma dor que desatina sem doer, ouve-se por aí. Pois eu ainda não encontrei o analgésico.
Mas quem disse que o amor é uma coisa boa? A sério?! Quem foi a alminha que espalhou esse boato? Eu não consigo ver um só aspecto positivo da coisa. Dá dores de estômago, faz-nos dizer coisas perfeitamente em desacordo com aquilo que pensamos, tira-nos o apetite, o sono, ocupa-nos a cabeça o dia inteiro e, à noite, lá está ele nos nossos sonhos. Será isto bom? Não me parece. Pelos menos durante fase da dança na corda bamba.
Eu culpo os poetas. Atiram-nos versos para os olhos que embelezam o papel mas não nos ensinam a escrever os nossos próprios poemas, nem tão pouco a compreendê-los. Por isso desisto de os ler. São letras a mais, para quem as usa como modo de subsistência. São demasiadas páginas por dia, para quem as devora como se o amanhã fosse já hoje. É teoria que sobra para quem apenas deseja a prática.
Como eu.
Adeus, poema, meu grande culpado.

Na primeira pessoa

Pearls of swine bereft of me
Long and weary my road has been
I was lost in the cities
Alone in the hills
No sorrow or pity for the leaving
I feel

(chorus)
I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky

Friends and liars don't wait for me
I'll get on all by myself
I put millions of miles
Under my heels
And still too close to youI feel

(chorus)
I am not your rolling wheels
I am the highway
I am not your carpet ride
I am the sky
I am not your blowing wind
I am the lightening
I am not your autumn moon
I am the night

I'm The Highway, Audioslave

terça-feira, janeiro 02, 2007

Rewind please

Espreitas-te sem levar o olho ao canto e por aqui mesmo me sento.
Maquinalmente recuas sem pensar no buraco de lama solta que ficou por tapar. Por agora as janelas abertas deixam a chuva entrar, mas como a minha pele é permeável, nem sequer me importo.
Molha-me toda até, se conseguires.
Premeio a intemporalidade das palavras porque delas é o reino dos que sentem. Como eu, que não deixo que um conjunto de braços que abraçam sem sentido me retirem da rota à qual me propus seguir. Avanço mesmo que a areia me tape os olhos, mesmo que os pés doam, mesmo que a areia volte a tapar os olhos, mesmo que os pés comecem a sangrar.
Naturalmente encolho os ombros e faço-me a pergunta do costume. E o palpitar responde um terno “sim”.

Rendez-vous a 7 de Março



Yann Tiersen, Monochrome

segunda-feira, janeiro 01, 2007

A fresh new star(t)

Foto: Luís Miguel Martins
Que, em 2007, todos os fins de dia possam ser assim...