quarta-feira, dezembro 20, 2006

Lasting image

Enterrei-te hoje mesmo ao lado das únicas duas fotografias que tirámos juntas. Tal como naquela viagem à neve, hoje acompanhei a tua ida, ao frio e sem lágrimas. Ainda não me habituei ao som das pás a bater na terra, que depois te beijou de forma rude e um tanto desajeitada. Não me lembro da última vez que te vi, lamento. Não, não lamento. Talvez por isso tenha ficado inerte a olhar para o teu caixão, sem pestanejar, sem pensar noutra coisa se não nos segundos que passavam. O tempo que eu não vivi contigo, mas que, mesmo assim, me fez querer estar ali. Também fui por ele, porque é o meu melhor amigo, porque fez tudo para sair dali sem um arranhão na alma, evidente quando insistiu em perguntar-me se eu estava bem, quando era ele que precisava que lhe perguntassem. Sei que por dentro ele estava a sangrar e a gritar tudo aquilo que nunca te disse na cara, se bem que merecias. Sem qualquer peso na consciência assisti a tudo como se de um espectáculo se tratasse, no qual eu era uma figurante sem qualquer talento para a representação.
No fundo, esta foi a nossa última fotografia. E como nas demais, tu não estavas ao pé de mim.