terça-feira, novembro 28, 2006

Moribunda palavra escrita

Comecei a escrever aos quatro anos. Com uma maneira pouco ortodoxa de pegar no lápis (que ainda hoje se mantém) lá conseguia rabiscar uma espécie de caracteres e ficava toda contentinha. 21 anos depois, a alegria na escrita mantém-se. Porém, penso que o significado mudou.
Após anos de estudo na área das palavras e de muitos e muitos textos lidos e escritos, a minha convicção em relação à escrita está a mudar. Não a minha relação com ela, mas como a tenho visto ultimamente.
Sempre acreditei na palavra escrita. Mais, sempre acreditei na maioridade da escrita em detrimento daquilo que se diz. O momento da escrita é solene, cuidadoso e extremamente enriquecedor. Ou assim devia ser. E já nem falo em termos históricos, em que a escrita passou a assumir importância legal ao longo dos tempos e a permitir a propagação de informações e conhecimentos ao longo de várias gerações.
A verdade é que, hoje, não sei se por falta de fé, se foi devido à mudança dos suportes de escrita, acredita-se mais no que se fala do que naquilo que se escreve. A escrita está totalmente banalizada, subjugada para um nível que não merece. Os SMS, os e-mails, o MSN Messenger são, de facto, muito úteis, mas fizeram sucumbir o acto da escrita pensada, ponderada e sentida.
Talvez por isso eu própria esteja cada vez mais descrente da qualidade das palavras que vejo escritas e precise que estas sejam verbalizadas. Mais, preciso de olhar nos olhos do interlocutor e "ver" os vocábulos cuspidos directamente da fonte.
No entanto, eu ainda me dispo nas palavras que escrevo, ainda assumo a verdade daquilo que penso no imediato da escrita. Talvez por isso me digam que falo como escrevo.
Porque não sei dissociar os meus pensamentos.
Porque não separo as verdades naquilo que digo e naquilo que escrevo.
Porque ainda acredito nos jornais que leio, nos muros com palavras de ordem e nas cartas que me escrevem, nas mensagens que me chegam ao telemóvel, nos postais de aniversário que me oferecem e em todos os posts de todos os blogs que leio. Mas começo a precisar de ouvir dizer todas essas mensagens em voz alta.
Que se continue a comunicar. Mas que seja verdadeiro.
Que se escreva onde quer que seja e que se fale, mas que a palavra não morra.