quinta-feira, novembro 30, 2006

Caminhos

Abrir as mãos à possibilidade de estar errado.
Mesmo que todas as indicações apontem para a esquerda, é importante ponderar a direita, o desvio, o atalho. E ponderar nem sequer caminhar. Ficar por ali, a contar metros imaginários, num trilho desconhecido.
O mapa amareleceu mesmo antes de ser aberto e usado. Suado, vens tu, com vários cortes nos pés. Vieste sozinho e lamentas não teres chegado antes. Pedi para que te apresentasses e o sorriso que me mostraste pareceu saído de uma revista.
Gostei de me lembrar dele durante todo o dia, tal como fiz ontem.
E os pré-avisos de palpitações apenas servem de orientação para a próxima temporada.
Com a chegada dos dias, os circuitos mudam...
mas eu ainda estou aqui.

terça-feira, novembro 28, 2006

Moribunda palavra escrita

Comecei a escrever aos quatro anos. Com uma maneira pouco ortodoxa de pegar no lápis (que ainda hoje se mantém) lá conseguia rabiscar uma espécie de caracteres e ficava toda contentinha. 21 anos depois, a alegria na escrita mantém-se. Porém, penso que o significado mudou.
Após anos de estudo na área das palavras e de muitos e muitos textos lidos e escritos, a minha convicção em relação à escrita está a mudar. Não a minha relação com ela, mas como a tenho visto ultimamente.
Sempre acreditei na palavra escrita. Mais, sempre acreditei na maioridade da escrita em detrimento daquilo que se diz. O momento da escrita é solene, cuidadoso e extremamente enriquecedor. Ou assim devia ser. E já nem falo em termos históricos, em que a escrita passou a assumir importância legal ao longo dos tempos e a permitir a propagação de informações e conhecimentos ao longo de várias gerações.
A verdade é que, hoje, não sei se por falta de fé, se foi devido à mudança dos suportes de escrita, acredita-se mais no que se fala do que naquilo que se escreve. A escrita está totalmente banalizada, subjugada para um nível que não merece. Os SMS, os e-mails, o MSN Messenger são, de facto, muito úteis, mas fizeram sucumbir o acto da escrita pensada, ponderada e sentida.
Talvez por isso eu própria esteja cada vez mais descrente da qualidade das palavras que vejo escritas e precise que estas sejam verbalizadas. Mais, preciso de olhar nos olhos do interlocutor e "ver" os vocábulos cuspidos directamente da fonte.
No entanto, eu ainda me dispo nas palavras que escrevo, ainda assumo a verdade daquilo que penso no imediato da escrita. Talvez por isso me digam que falo como escrevo.
Porque não sei dissociar os meus pensamentos.
Porque não separo as verdades naquilo que digo e naquilo que escrevo.
Porque ainda acredito nos jornais que leio, nos muros com palavras de ordem e nas cartas que me escrevem, nas mensagens que me chegam ao telemóvel, nos postais de aniversário que me oferecem e em todos os posts de todos os blogs que leio. Mas começo a precisar de ouvir dizer todas essas mensagens em voz alta.
Que se continue a comunicar. Mas que seja verdadeiro.
Que se escreva onde quer que seja e que se fale, mas que a palavra não morra.

segunda-feira, novembro 27, 2006

In memoriam

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny (1923-2006)

sexta-feira, novembro 24, 2006

Last afternoon a taxi driver saved my life (entoar como na cançãozita disco da moda, s.f.f.)

Pois que sim! Nunca pensei proferir tais palavras, mas, de facto, aconteceu: um taxista salvou o meu dia. Curiosamente, dois dias após ter apanhado um susto de morte (literalmente!) no túnel da Av. EUA com um desses seres malignos que usam uns veículos de cor creme como arma de transporte, eis senão quando encontro ontem um exemplar raríssimo!
O tipo, para além de conduzir bem, era um filósofo dos tempos modernos, que me fez sorrir num dia, convinhamos, de merda. Estranho foi que até um estranho tenha notado a minha tristeza. Numa breve conversa sobre as banalidades da vida que temos, tivemos ainda tempo para comentar "Le Fleurs du Mal", de Baudelaire, e dizer umas piadolas sobre o Santana Lopes.
Relembrou-me da minha inerente boa-disposição e, assim, o resto do dia já não foi, vá lá, totalmente merdoso.

quinta-feira, novembro 23, 2006

O velho do 74

Hoje encontrei de novo aquele velho no autocarro, aquele que diz volta e meia "Deus morreu". É engraçado aquele velho. As ideias fogem-lhe da cabeça tão depressa que a censura da sua boca apodrecida as deixa passar, lentamente. E é devagar que ele se movimenta. Com pequenos gestos, assume uma postura meio curvada, mas segura de si. As vizinhas perguntam-lhe meia volta pela sua saúde e ele pede, pela saúde delas, que o deixem em paz. O velho só quer entrar no autocarro, agarrar-se com a pouca força que tem e seguir viagem. Para ele, "Deus morreu".
E trocámos um sorriso.

terça-feira, novembro 21, 2006

Simple as that

Ela começou a cantar aquela música que lhe arrepia até os dedos dos pés e pensou naqueles versos trémulos que descreviam na perfeição o ambiente ao qual ela se propôs. Sim, foi uma proposta e nada mais do que isso.
"Well baby I've been here before
I’ve seen this room and I've walked this floor
I used to live alone before I knew ya
And I've seen your flag on the marble arch
But Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah."

Tudo isto soava a um bolor estranho coberto por uma esperança rídicula à qual ela se entregou. Sim, foi uma entrega e nada mais do que isso. Sacudiu os ombros e sussurou uma vitória simples, mas calma, mas suave, mas tudo aquilo que ela não conseguiu ser.
À medida que os cadernos amareleciam, ela abriu a porta e a merda do vento gélido cheirou-lhe à fotografia que eles tinham tirado naquele mesmo lugar. Sim, foi uma recordação e nada mais do que isso.
Mas os versos daquele tema que lhe coça os cabelos atrás da nuca continuavam a ecoar por entre os ouvidos. Desistiu e cantarolou-a até à exaustão. Sim, foi uma fraqueza e nada mais do que isso. Ao fim do dia, ainda tinha as marcas negras dos pontapés da certeza de que nunca mais ouviria aqueles acordes quase mórbidos, naquela voz a tocar o angelical.
Deitou-se e adormeceu na exasutão. Sim, foi um dia normal e nada mais do que isso.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Velha novidade

Saber-me-ás distinguir por entre as palavras que escrevo ou saber-te-á a amargo ouvi-las ao ouvido? De qualquer forma, não temo os gestos em jeito de reacção. De outra forma não estaria aqui. E sempre que uma novidade é descoberta, a palavra nasce de mim e escava um estreito túnel de aproximação até o outro lado. Passa para lá, porque de cá te vejo. Se bem que a sombra assume um lindo contra-luz que tapa as imperfeições, mas deixa ficar-te assim, só um pouco mais. À medida que te vais aproximando, a pele começa a mostrar as marcas dos sorrisos e das preocupações passadas, mas é essa a tua essência. Saber-me-ás de cor e salteando os momentos de distância, chegaste.

domingo, novembro 19, 2006

sábado, novembro 18, 2006

Genéricos para quê?!

Se rir faz bem à saúde, esta madrugada foi a medida profiláctica perfeita, um anti-inflamatório do melhor, garantindo-me, vá lá, dois ou três anos sem uma constipaçãozita ou um espirro sequer.
DO CARAÇAS!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Quietude ou talvez não

Aproximas-te de uma realidade demasiado ideal. Perfeitamente escusada, devo dizer-te. Quando te olho bem centradamente para esse teu umbigo de sorrisos suaves, tenho aquela sensação estomacal, que me lembra umas outras tantas, de pertença, de vontade de dizer mais. Mas não digo. Levo as mãos à boca e fico-me pelo fervilhar de ideias agudas a teu respeito. E também porque te respeito não faço mais nada. Supostamente agora arrancava umas pequenas migalhas de um pão qualquer e ensinava-te o caminho até mim, mas não sei se tenho tempo para isso. Até quero, mas a inoperância mental tem destas coisas e pensar demasiado em ti à noite bloqueia-me as acções durante o dia. Mas estás lá. Presente, num canto, como uma oferta de uma cantiga só para mim. Canta lá aquela música, que eu sei que tu sabes. Também gostas, não é? Vou esperar que o calendário vire as folhas por ti.

quarta-feira, novembro 15, 2006

One of my favorites



Choose life. Choose a job. Choose a starter home. Choose dental insurance, leisure wear and matching luggage. Choose your future. But why would anyone want to do a thing like that?

terça-feira, novembro 14, 2006

Hedonista, oui c'est-moi!

Li isto agora e não podia discordar mais: "Choose the life that is most useful and habit will make it the most agreeable."
Chamem-me insatisfeita, mas a vida não deve ser agradável apenas pelo hábito, ó Francis Bacon! Nem devemos escolher a vida que nos é mais útil...mas sim a que nos faz sorrir mais vezes. Pode custar umas quantas cabeçadas na parede, mas depois passa e sabe tão bem!!

segunda-feira, novembro 13, 2006

Memória Maior em Mim

Eu conheço uma pessoa maior em memória. Maior até do que o tempo que viveu em mim. Um homem que os livros conhecem de cor, de tantas vezes que por ele passaram. As mãos deste homem conhecem os meus cabelos. Mas quando ele caminha e se afasta, a segurança do seu andar grita o seu nome e as as largas passadas suas dão às calçadas um novo ar.
Ele é uma antevisão de mim e eu nunca o tinha percebido. Nem a ele nem às ideias (agora) óbvias que ele anunciava por entre risadas irónicas.
Eu conheço este homem porque sou como ele. Todas as suas falhas são os meus defeitos, todos os seus sucessos são o retrato das minhas conquistas.
Os dias em que o conheci foram permitidos pelos singelos minutos de amanhã.
A hesitação diz agora que sim.
Eu conheço um homem maior do que a dúvida, maior do que o medo de uma recusa a quente. Um homem que me plantou e que agora lança borboletas ao ar enquanto durmo e sonho com ele.

domingo, novembro 12, 2006

À espera do "Amanhã"


The last one to die please turn out the light...

sábado, novembro 11, 2006

Estamos sempre a aprender

Fiquem a saber que o resultado de 10 minutos numa passadeira ou numa bicicleta é o equivalente a estar o mesmo tempo a jogar playstation e a comer pipocas no sofá*

*Fonte de informação: o instrutor mr. muscles, do ginásio da moda.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Obrigatório

Trailer de "Little Miss Sunshine"

Mapas há muitos, ó palerma!

Quando entramos num táxi porque temos pressa para ir para um local que, por acaso, até nem sabemos onde fica, achamos sempre que "não importa porque o senhor taxista deve saber" (sim, é assim que os chamo - senhores taxistas porque o respeitinho é muito bonito).
Pois bem, entramos na viatura e dizemos o destino.
Ele vira-se para nós e pergunta de sobrancelha franzida:
-Oi?
Pensamos ingenuamente que o senhor não ouviu e repetimos.
-Hummm... Dêxa eu vê!
E abre o mapa de Lisboa...

terça-feira, novembro 07, 2006

O David não é pimba

Ando a pôr a leitura em dia

Foto retirada do site jarheadmovie.com

sexta-feira, novembro 03, 2006

Simplicidade

Surpresa imediata
(ou talvez os pés estejam demasiado doridos)
o corpo invadido
pelo olhar passado
é
uma forma fugaz
de luta
imparcial em pura mobilidade.
Dizer simplesmente que sim
ao cheirar um novo perfume.

Passagem para um mundo andrógena
governado sem senão
deseja-se um som
como o das passadas na gravilha
que lembram quem passou ali
alheado ao passado que construiu
em ti.

E por ti
um dia
celebraremos.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Me like it!

quarta-feira, novembro 01, 2006

Imagens a solo

































































Fotos: Paula Pinto Gonçalves