quinta-feira, agosto 31, 2006

A história de um velho

Um coração que pula, mas que não avança, entregue às puras diferenças de ser.
O medo de estar afastado da realidade conduz aquele homem à simples expectativa dos dias. Ele não os vive, simplesmente puxa por eles, tal como eles não o fazem por si. Propriamente alheado das árvores do seu quintal, ele insiste e vai aconchegar-se nas sombras dos ramos, porque tem medo da sua figura, porque não tem mais para onde ir.
Caminha ao redor de uma moldura velha, com bolor da humidade que vem da janela, e lembra-se de um presente que lhe vai escorrendo pelos dedos.
Entregue a um abraço esquecido, o velho dorme nas escadas sozinho, porque quer, porque nem sequer tem outra companhia.
Um dia, os olhos do cão que beijava as pernas cansadas esbranquiçaram tanto e a pele foi de encontro aos ossos de tal modo, que ele desejou o mesmo para si. Uma perspectiva da vida de cão que ele sempre tivera.
Ao acordar, salpica gotas de água no rosto vincado. Passa as mãos pelo pouco cabelo que tem e leva os dedos aos bolsos cheios de restos de papel. Sabia que tinha anotado uns números de telefone. Mas não se lembra quando, nem mesmo a quem pertenciam os números.
Amanhã vai à cidade.
Depois, logo se vê.