sexta-feira, julho 28, 2006

Fugas/z

A mulher falava alto das suas baixas trivialidades, numa vida mínima que só conheceu aquele balcão. Lentamente, apercebeu-se que todos a olhavam e sorriu com o rubor já nos lábios.
Os olhos como peixes verdes como naquele poema nadaram a atenção para o jovem que acabava de entrar.
As rugas da cara penduravam o bom-senso de não criar uma aproximação.
Mas fê-lo.
Insinuou-se, e já com as coxas molhadas de medo, sentiu as palavras menos limpas a passar-lhe pelos dentes. Tinham passados breves horas ofegantes desde o primeiro encontro e ela já gritava por mais suor.
Os músculos jovens daquele miúdo com ar de gente grande atrofiaram-lhe os livros de maneiras que lera há uns largos anos nos corredores do liceu.
Gritou novamente e ele cantou por entre uns lençóis brancos manchados de êxtase uma melodia séria e oportuna. Ficou aquela noite e a seguinte, mas não a outra.
Ela cansou-se daquele ar borbulhento que não sabia o primeiro verso d'Os Lusíadas e mandou-o dar meia-volta até um dia qualquer.
Até lhe apetecer desligar uma vez mais o comando da sua pequena realidade.