segunda-feira, julho 10, 2006

De negro, inevitavelmente

23h15 e já olhou para o relógio três vezes. «Só falta chegar a tia Alice», pensava Filipa, enquanto batia o pé nervoso no chão e levava uma curta madeixa de cabelo à boca, em jeito de desleixo e preocupação. «Fechamos o caixão e depois vamos para casa». Filipa queria descansar as pálpebras arroxeadas e os pés que não conseguiam dizer adeus àquele espaço.
Na próxima manhã ia enterrar a mãe e não tinha uns sapatos a condizer com o vestido preto de alças do mesmo tom, escondido no armário já há uns meses para aquele mesmo propósito.
Mas esqueceu-se do raio dos sapatos.
Para ela, o melhor mesmo era ir s«descalça. Sentir o calor da terra que, em breve, iria engolir a sua amiga favorita, dos longos e doces abraços antes de adormecer.
No hospital, os beijos com os braços eram gentilmente substituídos por um piscar de olhos cúmplices, quando os médicos insistiam em dizer «esperança». As duas sabiam que de nada valia esperar quando as pestanas já não abriam logo pelo sol da manhã.
Finalmente, a tia Alice chegou.
Fecha o mogno, abre a porta do carro, fecha a porta do carro, abre a porta de casa, fecha a porta de casa para amanhã abri-la e fechá-la pela última vez.
Filipa sairia para não mais voltar ali, uma casa velha com cheiro a velas de baunilha meio rançosas e às doces tortas de chocolate que a mãe lhe fazia aos domingos à noite.
Com uns ténis antigos apertados nos dedos dos pés, nas mãos umas flores brancas arrancadas do seu jardim, Filipa disse A D E U S à mãe, piscando o olho e sentindo mais um abraço.
Filipa não chorou naquela manhã.