terça-feira, junho 27, 2006

Decisão

Enquanto virava a página de mais uma revista sem interesse, Ana encostou-se à parede de cal solta e deixou que esta lhe marcasse a camisa vermelha. Aquele pedaço de tecido quase transparente foi um presente de um amigo no seu último aniversário. E tal como a parede, aquela amizade passada tinha pintado com uma cor pouco consistente o rumo dos dois.
Luís deixou a cidade pouco tempo depois da notícia. Ainda tinha os dedos enterrados na cabeça e os joelhos a tocar a testa, quando entrou no autocarro rumo ao Porto. Tinha lá família e os olhares que o perseguiam sempre que saía à rua não alcançavam 300 quilómetros. Pensava ele.
Ana chorou a dimensão de uma nova vida e aproveitou para levantar a cabeça. Todos lhe diziam «tens que ser forte» e ela pensava que se ouvisse mais aquela conversa de treta, teria que ir embora. Mas, definitivamente, não seria como ele. A estrada foi construída recentemente e, agora, teria que se fazer ao caminho.
Luís chegou ao Norte do país ainda sem rumo. Tinha a morada da tia Alzira na mão, no bolso uns trocos que ficaram depois da compra de um jornal. Aquelas notícias não se importava ele de saber.
Ana ainda está encostada à parede quando lhe dizem para entrar. A cal da parede solta-se junto à camisa vermelha e, ao mesmo tempo, rasga-se o coração de uma mulher com outro coração dentro de si.
A caminho daquela sala com cheiro a éter, Ana começou a desfazer todas as decisões que havia tomado. «É melhor para todos», lembrava-se ela, assim como via a imagem de Luís a trair-lhe o destino quando lhe virou costas e disse que não estava preparado.
Ao despir a camisa da cor do sangue que ia ver em seguida, Ana gritou o som que havia de gritar nove meses depois.
E hoje é feliz a dobrar.