sexta-feira, junho 23, 2006

De olhos bem fechados

Uma doença colocou uma venda invisível nos teus doces olhos e assim ficaste por uns anos e até agora não te reconheces no ser que passaste a ser. Curvado sobre a tua figura com muitos anos nas costas e nos pés que teimam em não subir as escadas, os olhos fixam o que já não vêem. Tentas dizer que está tudo bem, quando nem tudo será igual ao que já foi.
Os olhos lacrimejam saudade e largas uma piada a cada sílaba cuspida porque é assim que os vizinhos ainda te conhecem.
Sais pouco à rua. Mas hoje cortaste o cabelo e vestiste um blusão novo. A bengala é velha como tu mas tenta endireitar-se pelo teu teimoso corpo acima.
As imagens do teu dia são tatuadas pelo escuro persistente das tuas pálpebras e agora tentas tocar todos com a voz e com as mãos.
Sim, porque os teus olhos não voltam.