quarta-feira, maio 31, 2006

Gostos não se discutem...

Gosto de fazer parêntesis longos a meio de uma conversa breve. Gosto que me ensinem trivialidades em menos de dez segundos, como o facto de as orelhas e o nariz nunca pararem de crescer, mesmo na idade adulta. Gosto que tenham coragem de me dizer as coisas na cara, sem grandes rodeios. Gosto de conversar com médicos. Gosto de poemas. Gosto de imitar o sotaque da minha avó à frente dela e ver o seu sorriso. Gosto de postais. Gosto de pisar folhas secas. Gosto de Lisboa. Gosto de eternizar momentos em fotografia. Gosto de ervilhas. Gosto de meter conversa com empregados de mesa. Gosto de aprender sempre mais. Gosto de leite frio. Gosto de futebol. Gosto de jornais. Gosto de palavras cruzadas. Gosto de dias cheios.
Mas gosto mais de dias em cheio.

segunda-feira, maio 29, 2006

Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa

Perto da vista, longe do coração

Sem surpresas veio a desilusão.
E ter que conviver com ela dilacera a falta de vontade que, por algum motivo, já existia. É um soco no vazio, é o repisar de folhas secas.
Tira-se a alegria dos dentes e caminha-se com um mapa na mão sublinhado a negro.
E depois vêm as perguntas do que já nada se tem. E um amigo que nem existe sente o mesmo. E aquela flor ainda nem secou.
São nove e nove e novamente vem aquele arrepio de arrependimento.
Mas se pudesse dizer tudo novamente, dizia da mesma forma, articularia as mesmas sílabas, acompanharia as frases com os mesmo gestos.
Porque falo com as mãos, porque sinto tudo o que digo, mesmo quando os ouvidos daquele que insiste em cruzar-se comigo se fechem quando falo e que as pernas palpitem ao som do coração.
Se agora te contasse um segredo, dizias a alguém?
Ao longe pareces-me melhor.

quarta-feira, maio 24, 2006

Novos olhares

Sempre tiveste mais coragem do que os outros.
Lembro-me de ter ver a arregaçar as mangas quando as dificuldades se colavam à lama da sola das botas do trabalho. O teu trabalho, aquele que te fez o que és hoje, que te moldou à feição daquilo que construíste, à imagem do passado que teimas em esquecer.
E as lágrimas que sempre engoliste formaram um lago sem vida, uma apatia quase revoltante, a qual um dia hei-de perceber.
Mas não me vou esforçar...
A tristeza dos velhos olhos castanhos hoje cantam-me brincadeiras de outrora e as imagens repetem-se como caleidoscópios transfigurados.
A nova vida apodera-se dos sons das conversas e já nem te oiço. Nem consigo obter uma melodia dos teus pensamentos. Sei o que sentes, mas não quero saber.
A desistência consegue apodrecer a mais bela maçã do rosto, a tua.
Quando me vires na rua, diz a todos que te viste em mim.

terça-feira, maio 23, 2006

Souvenir de Portugal

Numa destas tardes, o mítico 28 estava, como seu apanágio, a rebentar pelas costuras. Empurra aqui, «com licença» para acolá e, com (muita) sorte consegue-se o belo do lugar. Mas desta vez, um dos passageiros não se queria sentar. Aliás, o intuito deste indivíduo era mesmo não entrar. Isto porque ao subir para o elétrico lembrou-se de levar a mão ao bolso...do turista alemão que ia à frente. «O amigo do alheio» fez um belo trabalho, pois o Das Wolfgang nem sentiu o desaparecimento da sua carteira.
Uma jovem portuguesa que, espantemo-nos, viu o sucedido sem nada dizer, perguntou ao senhor se ele tinha a carteira. Ao gritar «Xaissa» (sei que não está bem escrito, mas eu sou daquelas pessoas que quando não sabe o termo certo, escreve como se diz - tal como o meu vizinho Zé que diz Toyota Iace e não Hiace, enfim...) percebemos que o estranja estava irritadinho.
Mas a ira tomou conta daquele ser por mais ou menos três segundos e meio. Depois de expulsar o termo menos impróprio da sua língua materna, sentou-se calmamente e lá seguiu na sua viagem pela bela cidade de Lisboa.
E com um recuerdo dos melhores!
P.S.: Para aqueles que acham que há falta de segurança nos transportes públicos lisboetas, vê-se que são pessoas mal informadas e mal intencionadas. Se olharem bem para o tecto das viaturas que andam sobre carris, verão o aviso num autocolante bem catita: «Cuidado com os carteiristas», e em várias línguas.
Ora, pode não haver segurança, mas ao menos há informação sobre a falta dela!

sexta-feira, maio 19, 2006

Bastou a manchete de um jornal

No dia 16 de Abril, um jovem português como tantos outros morreu, como outros tantos, num acidente de viação numa estrada nacional.
Mas este jovem em particular era actor e querido pelas massas de teenagers deste nosso Portugal - o que conta sempre mais para o drama, digo eu.
As revistas, os jornais e, principalmente a TVI, casa mãe da novela com nome de sobremesa, aproveitaram e abusaram no tratamento desta informação.
Falou-se no acidente durante dias, na mudança necessária da trama da novela, e seguiu-se as passadas de todos os presentes no funeral, e em directo, claro está.
Algumas semanas após a morte do jovem, noticia-se a possibilidade de consumo de droga.
Hoje confirmou-se essa hipótese através da revelação dos exames toxicológicos feitos ao cadáver. Cocaína. Consumida «pouco tempo antes do acidente», diz a notícia em questão.
Aqueles que no dia 16 choraram a notícia, hoje comentavam (sem a lembrança daquelas lágrimas)uma manchete num quiosque lisboeta:
- Metem-se na droga...é o que dá.
E assim se muda a opinião pública.

sábado, maio 13, 2006

Conselho poético

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa?
Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.
No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.

Ricardo Reis

sexta-feira, maio 12, 2006

Vamos lá ginasticar!























Hoje andei de bicicleta, fiz abdominais, passadeira, step, remo..e ainda sobrou tempo para o yoga.

Resumindo...tou que nem posso!!!

Goodbye

Foi um beijo de despedida.

L O N G O.

Contornando lágrimas, abrançando um «olá» que fica sempre para depois, eles juraram um sussurro. O que fica por agora são as marcas dos dedos que apertam as mãos e os medos que embalam as horas que não enganam a distância.

Acena-se ao amanhã e aos dias que virão por telefone, recordando os beijos com sabor a açúcar e a canela das farturas da festa de ontem.

Ele limpa-lhe o rosto marcado pelos olhos vermelhos e pede-lhe que sorria.

Foi a última vez que se viram.

quinta-feira, maio 11, 2006

Os músculos também se distraem

Com a eternidade dos seus oito anos, chega a casa a coxear.

- Então? O que se passou?

Leva a mão à cabeça, com o dramatismo e a comiseração típicos de uma fatalidade.

- Nem imaginas! O mister disse que eu tenho uma «distracção» muscular!

Cai sobre o sofá e suspira a sua má sorte.

segunda-feira, maio 08, 2006

Hoje vou dizer à lua que estou ocupada...

...a planear uma viagem ainda sem destino.

A companhia, essa, já está garantida!

The next best thing...

Foto: Lusa

«É pró leão»...ah pois é!

quinta-feira, maio 04, 2006

Segue,segue,segue

-Bom dia menina.
-Bom dia.
-Como é que vou daqui (Colégio Militar) para o Parque das Nações?
-Olhe, apanha este Metro, sai na estação Baixa-Chiado, muda para a linha verde, apanha o Metro na direcção a Telheiras, e sai na Alameda. Muda para a linha vermelha, em direcção a Oriente e sai na última paragem. É aí o Parque das Nações.
- (....de olhos incrédulos e de boca aberta....) Não sei como é que vocês aguentam esta cidade.
-Pois, sabe, às vezes é complicado...mas eu adoro!

Num fim de tarde qualquer



Realidade ficcionada

-Não podes dizer que não me esforcei.
-Pois não...esforçaste-te de mais...

Tentando ser entendido pela Babel de cartão que, de repente, se molhou, entende-se melhor a mutabilidade das conveniências.
Assusta um pouco, é verdade, mas a princípio é sempre mais fácil e as certezas batem-se lado a lado com as expectativas.
Nunca se sabe muito bem onde está o início e se aquele fim será igual a todos os outros.

Dá-se a mão à palmatória, uma palmadinha nas costas, e olhar nos olhos torna-se desconfortável.
Doloroso mesmo.

A piada aparece como salvação para o erro, pedir desculpas é o mais certo a fazer e a confusão das atitudes só apetece mandar à merda todos os sorrisinhos de protocolo.

Pede silêncio por agora e alega cansaço em defesa da pata que pôs novamente na poça.
«Assim é mais fácil e acreditarão todos em mim».
Mas não é bem assim...

terça-feira, maio 02, 2006

Lugares

Dei lugar à tua sombra*

A transferência de ideias transformou-se agora em fluidos repetidos de carícias programadas. Lentamente, a areia beijou os pés já lavados e o atrevimento caiu à beira da água.

Nem sempre pensei assim. Tudo agora termina com um ponto de exclamação, porque há mais surpresa, porque a descoberta é maior.
E assim a novidade nasceu e a verdade é que já ficou.
Ter-se-á que lhe dar um novo espaço ou modificar os rótulos escritos à mão, com uma caneta velha de cor verde-escuro.
Escreve-se repetidamente e ninguém percebe.

*quando passaste agora por mim...

segunda-feira, maio 01, 2006

Dia do Trabalhador da TV Cabo

A TV Cabo informou-me que teria de trocar a Box pela Powerbox (benvindos ao mundo da televisão digital). Lá se marcou a data e lá vieram os senhores sem colete nem nada, porque o trabalho nem demora cinco minutos.
Cabos para lá, cabos para aqui, da televisão, do DVD, da Powerbox... «Boa tarde minha senhora» e lá foram minar a casa de mais umas centenas de portugueses.

Dia seguinte: cartão não introduzido correctamente. A frase podia ser «cartão introduzido incorrectamente», até porque, na minha opinião, soaria melhor. No entanto, aquele «não» é bastante simbólico da NÃO eficácia deles, digo eu.

«Desiste disso», oiço a minha intuição a dizer e também a minha mãe, sempre bastante positiva. Mas aqueles canais giros, com séries à maneira, a horas decentes falam mais alto.

Ligo. 10 minutos ao telefone com um Pedro. Desliga a Powerbox, liga a Powerbox, muda os menus e opções, ESC, OK, ESC, OK. Erro no cartão.

«Tem disponibilidade para ficar em casa à tarde?» (leia-se FERIADO COM UM SOL DO CARAÇAS)

«....Pois, lá terá que ser...»

15 minutos liga um solícito Rui, da dita empresa, que me dá novamente a esperança de poder resolver o problemita por telefone. Quando dou conta lá estou novamente no menu e nas opções. ESC, ESC, OK,OK,OK,OK... (Já percebi que não vou a lado nenhum..)

Espero que eles decidam aparecer( será que aparecem?), enquanto olho para a janela e penso na esplanada onde podia estar neste momento...

Obrigada TV Cabo!!