sexta-feira, abril 28, 2006

Noites

A Margarida só faz uma coisa de cada vez.

Calçou os saltos altos daqueles sapatos de verniz gastos pelo pó do armário e saiu de uma nuvem colorida à força. Vagueia pelas ruas desta cidade à noite e o seu vestido justo e pouco honesto faz com que ela sinta a vergonha da cara dos pais que nunca teve.

A Margarida faz as coisas na sua vez.

O gosto do prazer azedo dá-lhe a confiança de uma casa nova todas as noites. Há uns anos, Margarida renunciou a vida de uma outra vida porque ela ainda não havia encontrado a dela.
E quando, num dia acabado de nascer, alguém lhe pediu um cigarro a mais, Margarida queimou as mãos de quem a segurou.

A Margarida fez uma coisa desta vez.

Regressou ao bairro onde todos sabem o que faz, mas onde ninguém a ajuda a saber o que tem de fazer. Ainda com os sapatos de verniz engraxados com a sujidade de mais uma noite de trabalho, ouviu chamar o seu nome.

A Margarida não devia ter feito o que fez.