domingo, abril 30, 2006

A morte de sentidos

A rosa murchou pelas lágrimas de uma gargalhada morta.
O som morreu.
Os corredores cheios de ar cheiram a tempo mofo, a copos de vinho azedo, a pratos com restos de chantilly amargo e pedaços de morango seco.
A memória morreu.
A cor dos olhos muda pela água que beija a cadavérica face de uma menina que já foi mulher. Veste-se uma roupa escura para não ofender a claridade de um preconceito.
A luz morreu.
Roda um ciclo verde, os ponteiros apontam para cima e agradece-se ao coração mais pequeno. O quarto que tem o quadro maior das cores pintadas sem nexo explica a dor que às vezes teima em nem chegar.
A boca morreu.
As palavras de qualidade não nascem com frequência. Falta a banda sonora, as crianças a jogar à bola, os namorados abraçados, as braçadas num rio, um riso cúmplice entre uma troca de olhares. Não se vê mais, piora-se a percepção de um toque e aprende-se a usar a não-verdade.
Eufemismos na troca de um beijo.
A voz morreu.
Os nervos que secam, as horas que nadam em nada, a incerteza de uma sólida amizade. Os pés caminhavam até aqui, a mente voa para outro lado qualquer. O doce dos dedos lambidos pelo vento das palavras basta para sorrir.
O abraço morreu.
Lilás de fundo vermelho metálico, peça de uma vontade deixada para trás. Diz-se adeus em francês como naquele filme porque é mais bonito.

Deu-se o coração às flores. Elas que reguem o resto.

Depois de adormecer

Esperou na esquina e teimou em não atravessar a estrada. «Passa para lá e depois conta-me as novidades», disse ela. «A voz que suavemente ocupa todo o sentido ilumina o meu exterior», continuou.
A dúvida nasce lado a lado da surpresa, dá as mãos ao remorso e segue.
Agora pára.
«Sim. Digo-te que não continues, mesmo que nos teus sonhos me digas o contrário».
E as imagens disparam a lembrança.
«Não me lembres o presente», pediu ele. «Preciso de fugir agora».
As necessidades continuam a renascer as ideias e estas mudam de vez. Dá-se o confronto, o espelho parte. Ameaça-se cortar o pulso da verdade, escorrendo mentira, sujando laços mais ou menos próximos.
«Tiraste-me o sonho que tinha escondido no bolso», suspirou ela.
«Acorda», rematou ele.

sexta-feira, abril 28, 2006

Noites

A Margarida só faz uma coisa de cada vez.

Calçou os saltos altos daqueles sapatos de verniz gastos pelo pó do armário e saiu de uma nuvem colorida à força. Vagueia pelas ruas desta cidade à noite e o seu vestido justo e pouco honesto faz com que ela sinta a vergonha da cara dos pais que nunca teve.

A Margarida faz as coisas na sua vez.

O gosto do prazer azedo dá-lhe a confiança de uma casa nova todas as noites. Há uns anos, Margarida renunciou a vida de uma outra vida porque ela ainda não havia encontrado a dela.
E quando, num dia acabado de nascer, alguém lhe pediu um cigarro a mais, Margarida queimou as mãos de quem a segurou.

A Margarida fez uma coisa desta vez.

Regressou ao bairro onde todos sabem o que faz, mas onde ninguém a ajuda a saber o que tem de fazer. Ainda com os sapatos de verniz engraxados com a sujidade de mais uma noite de trabalho, ouviu chamar o seu nome.

A Margarida não devia ter feito o que fez.

quinta-feira, abril 27, 2006

Vidas separadas

Chegou a casa com o cabelo por lavar e nos olhos pretos cansados de negro trazia a desilusão de mais um dia.
Ela sabia-o. Soube-o a novidade, porém.
Ele arrastou a cadeira bamba encostada à mesma porta vermelha de sempre e, naquele fim de tarde de Verão, sentou-se .
-Fiz o jantar. Queres?
A resposta atirada por entre os dentes foi clara.
Ele já tinha comido.

Distantes ma non troppo

Roubas a alma com a tua máquina de criar sonhos com a perspectiva em tons de preto e branco. Às vezes há cores também. E nunca as imagens foram tão perpetuadas na memória. Quer viver-se alegremente, mas os sentidos são infligidos como liberdades pérfidas.
Agora assume-se uma cumplicidade de vozes. Distância que se quer encurtar, laços que teimam em não se cruzar.
E assim os dias passam, afirmando relutantemente a falta de iniciativa.

Avanço.

segunda-feira, abril 24, 2006

Rox non verba*

As mãos tocam no chão quando seguem em direcção ao peito daqueles que nos sorriem. E os sons exasperados por suores quentes amaciam o recanto da memória que ocupam. Prefere-se dar a mão a dizer que está tudo bem, mesmo quando não está, mesmo quando não é isso que apetece dizer.
E aquele gesto diz que sim, dá tudo o que tem e percorre o olhar destemido de quem cora ao primeiro som do dia.
A rouquidão rasga a alegria da canção dos homens que oferecem os sonhos à Ideia.
Começou a dar e calou-se.


(*) palavras, não actos

quinta-feira, abril 20, 2006

Sobre a inveja

As unhas pagam a falta de segurança absoluta e o olhar fortuito desenha a vontade de conseguir um quadro pintado a duas mãos. Ao mesmo tempo que as horas insinuam uma chegada, partem-se os conluios, as amizades e o sussurro de uma vida dupla aquece o bolso vazio.
As rodas que ajudam o circuito da verdade deixam a franqueza de lado e desiste, de andar.
Ruboriza-se a face, atravessa-se para o outro lado...e jamais se volta atrás.

Baixinho

Marcar de um sonho mal dormido, mal podia caminhar pelas próprias pernas.
Mas foi.
E a desculpa de fortalecimento de um momento só a dois deu-lhe vontade de rir.
Ele não é de nada. Nem mesmo de tudo. Tem apenas uma forma subtil de acordar, diferente daqueles que têm um rumo.
Por todas as coisas que foram ditas, acredita-se no irracional, naquela voz que assobia um riso quando se declama um epitáfio.
O último momento recorda uma camisa azul pintada a desilusão.

terça-feira, abril 18, 2006

Segura(nça)



É bom saber que por mais alto que voe e que por mais vezes que caia...há sempre uma forte rede de segurança!

Imagens

A fotografia mostrava paisagens já vistas e, no entanto, ela recordava cada espaço como uma novidade. O seu vulto voava à procura daquela certeza que ela já não tinha. E receava. O último murro no estômago tinha acabado com o sangue na boca e com a acidez por entre os dentes.
A meninice das tranças deu a volta aos mapas todos dobrados que estavam guardados à chave. E, à maneira dela, tinha conseguido recuperar a chave.

Mas, desta vez, o percurso já não era igual.

sexta-feira, abril 14, 2006

Basta Pum Basta!

Das alterações de humor, da incapacidade de pensar um bocadinho só nos sentimentos dos outros, da limitação que criam à própria vida, da falta de diálogo, do «diz que disse», da tentativa de minar os sonhos de quem ri sempre mais alto...basta.

quinta-feira, abril 13, 2006

À esquerda ou à direita..

...o importante é a direcção «Férias».


O socialista Manuel Maria Carrilho, o presidente do PSD, Marques Mendes, o ex-líder do CDS-PP Paulo Portas e o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, foram alguns dos deputados mais faltosos nos primeiros oito meses de Parlamento.

in Expresso Online
http://online.expresso.clix.pt/1pagina/artigo.asp?id=24759959

Again

Porque dizem que se começa pelo princípio...este é um recomeço.

Dia-a-dia, comentários,pensamentos ou somente birras irão preencher este espaço.
Até quando...